Pimenta: muito além da ardência
Um ingrediente ancestral que ajuda a contar a história da cozinha brasileira.
Muito antes da chegada dos europeus, a pimenta já fazia parte da vida nas Américas. Cultivada pelos povos indígenas há milhares de anos, ela era alimento, remédio, proteção e identidade. Muito antes de ser vista apenas como um ingrediente picante, a pimenta já ocupava um lugar central na vida de diversas comunidades.
O Brasil abriga uma impressionante diversidade de pimentas. Malagueta, murupi, cumari, dedo-de-moça, bode, biquinho e tantas outras fazem parte de uma herança agrícola construída ao longo de séculos e que continua viva em diferentes regiões do país.
Entre os povos Baniwa, que vivem na região do Rio Negro, entre Brasil, Colômbia e Venezuela, a pimenta ocupa um lugar especial. Ela está presente na alimentação, nos rituais, na vida comunitária e na forma de compreender a relação entre o ser humano e a natureza.
É desse conhecimento que nasce a jiquitaia, uma mistura de pimentas secas e moídas com sal. Mas reduzi-la a um simples tempero seria injusto. A jiquitaia carrega a história de um povo, o trabalho das mulheres que cultivam as roças e uma enorme diversidade agrícola preservada por gerações.
São as mulheres Baniwa as principais guardiãs desse patrimônio. Elas cultivam, selecionam e preservam dezenas de variedades de pimentas, mantendo vivo um conhecimento ancestral que faz parte do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido como patrimônio cultural brasileiro.
Ao longo dos séculos, a pimenta encontrou outras culturas e ganhou novos caminhos. Passou pelas cozinhas indígenas, africanas e portuguesas até se tornar um dos ingredientes mais presentes na mesa brasileira.
Além do sabor, a pimenta possui compostos antioxidantes, estimula o metabolismo e está associada à liberação de endorfina — aquela sensação prazerosa que costuma aparecer depois de um prato bem temperado.
Mas talvez sua maior virtude seja outra: equilíbrio. A boa pimenta não existe apenas para arder. Ela traz frescor, profundidade, aroma e ajuda a revelar sabores que muitas vezes passariam despercebidos.
No Borogodó, a pimenta faz parte da nossa identidade. Está presente nos molhos artesanais da casa, na nossa versão inspirada na jiquitaia e no conta-gotas que acompanha muitos pratos, permitindo que cada pessoa encontre sua própria medida de intensidade.
Muitas das pimentas utilizadas nesses preparos são cultivadas por Gustavo Passos, que há anos coleciona variedades, experimenta combinações e produz os molhos servidos no restaurante. Um trabalho que une agricultura, curiosidade e respeito pela enorme diversidade de sabores que a pimenta oferece.
Depois de cultivadas, essas pimentas chegam à cozinha e ganham novos caminhos. Algumas se transformam em molhos, outras entram em preparos específicos da casa, sempre buscando equilíbrio e profundidade de sabor.
É na cozinha conduzida por Aline Souza que esses ingredientes encontram seu lugar à mesa, ajudando a construir pratos que valorizam a culinária brasileira sem abrir mão da criatividade e da identidade do Borogodó.
Pimenta não é só ardência. É cultura, biodiversidade e sabor em movimento.
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